Vitória no campo e na vida

Símbolo da raça avaiana para a geração que começou a acompanhar futebol nos anos 90, o homem apelidado de “Rejão” pelo seu estilo guerreiro de jogar tem uma forma carinhosa de chamar o clube que defendeu por quase seis anos: “Avaizinho”. É falando dessa maneira – “o Avaizinho”, “o meu Avaizinho” – que ele lembra histórias do tempo em que vestiu o manto azul e branco e cativou os torcedores com sua garra e determinação em campo.

Aquela cabeleira inconfundível, porém, não existe mais, nem o jogador que aliava a vida de atleta com a de frequentador assíduo de bares e da noite florianopolitana. Aos quase 43 anos (faz aniversário em 8 de março), Reginaldo José Pacheco, o Régis, lutou contra o alcoolismo e ficou seis meses internado num centro de recuperação de dependentes químicos. Hoje mora em Curitiba (PR), sua cidade-natal, frequenta a Igreja Pentecostal Betel, trabalha como motorista de ônibus, é casado e tem com a esposa Vera um filho, Igor, de 3 anos.

Régis jogou no Avaí de 1994 a 1998, em 1999 e 2000. Disputou pelo menos 187 partidas, fez pelo menos 6 gols*, recebeu mais cartões do que deveria e menos do que poderia, somou nove vitórias e apenas cinco derrotas em 22 clássicos** e ergueu três taças com o Leão: Segunda Divisão do Campeonato Catarinense (1994), Copa Santa Catarina (1995) e Campeonato Catarinense (1997).

Alguns lances – como roubadas de bola, gols (embora poucos) e até um “carrinho de cabeça” para tirar a bola de um atacante do Coritiba em 1999 – ficaram marcados para sempre na memória dos avaianos. O estilo Régis de jogar casou-se perfeitamente com a história avaiana: raça, técnica e uma pitada de loucura.

Régis não se considerava um jogador de muita habilidade, mas bastante dedicado em campo. Acredita que isso se devia, principalmente, ao seu afinco nos treinamentos. Quando acabavam os treinos, ele continuava dando voltas no gramado correndo ou fazendo musculação.

- O preparador físico tinha que me mandar embora da academia, senão eu não ia. Eu era um jogador que, se estivesse bem fisicamente, rendia. Se não estivesse, não rendia.

Régis também avalia que tinha um bom conhecimento tático. Tanto que discutia o posicionamento do time com treinadores e até orientava os colegas dentro de campo. Ele relata que, depois da aposentadoria, chegou a ser convidado a treinar equipes das categorias de base do Avaí, mas preferiu permanecer afastado do futebol.

Como jogador, Régis viveu e ajudou a construir um clube que saiu do fundo do poço da segundona estadual para a Série B do Campeonato Brasileiro. No primeiro ano de Ressacada, ele morou no próprio estádio, no alojamento dos atletas, e lembra com carinho mesmo dos tempos mais difíceis, quando o dinheiro era escasso no Leão da Ilha.

Em 1994, por exemplo, foi com um cheque do preparador físico Marcelo Nunes, o Pantera (depois coberto pelo clube), que o Avaí conseguiu pagar os R$ 10 mil para tirar Régis da Caçadorense, sua primeira equipe em Santa Catarina e que defendia desde 1992. O atraso de pagamento do salário não era raro e chegou a aproximadamente seis meses antes da final da Copa Santa Catarina de 1995. Sobre essa decisão, contra o Joinville, o Régis conta histórias impressionantes e, até, engraçadas.

O Avaí, com poucos recursos, não concentrava. Os jogadores saíram de ônibus no dia do jogo decisivo – o primeiro, na Ressacada, foi 1×1 – rumo ao Norte do Estado. No caminho, o veículo teve um problema mecânico.

- Aquele ônibus era velho e funcionava assim: se tu aceleravas muito, a roda esquentava; se andava devagar, ela travava. A gente passava pelos postos da Polícia Rodoviária Federal, e os caras até já conheciam. Diziam: “lá vem o ônibus do Avaí” – lembra.

Com os problemas no veículo, o time se atrasou para a partida. A preleção do técnico Rui Guimarães e a colocação dos uniformes foram feitas dentro do ônibus mesmo, a caminho do Ernestão.

- O Duca [roupeiro] jogava as meias pra gente dentro do ônibus e dizia: “anda, veste logo, que tá quase na hora do jogo”.

O Avaí chegou ao Ernestão quando o Joinville e o trio de arbitragem já estavam em campo. Não aqueceu. Cerca de 10 mil torcedores lotavam as arquibancadas. A imensa maioria, claro, de joinvilenses.

- A torcida do Avaí chegou antes que nós. Tinha só alguns parentes de jogadores e uns três caras que estavam lá com bandeiras do Avaí. A gente não aqueceu e via os caras do Joinville passar pela gente voando. No intervalo, tava todo mundo com cãibra.

Mesmo com as dificuldades, um clima hostil e uma equipe formada basicamente por ex-juniores, o Avaí conseguiu se impor e venceu o Joinville por 3×1, conquistando o título. Isso causou revolta da torcida local, que quis invadir o gramado e vestiários para, digamos, tirar satisfações com os jogadores de sua equipe. Alheios à ira dos joinvilenses, atletas e comissão técnica do Leão comemoraram a conquista nos vestiários bebendo… água.

- Era a única coisa que tinha. A gente tomava um pouco, jogava um pouco uns nos outros… – recorda o ex-volante, que ganhou um freezer do técnico Rui Guimarães por ter sido o melhor em campo.

Régis participou, ainda, da conquista do estadual de 1997, quando teve que marcar, na final, um ídolo avaiano que defendia o Tubarão: Adílson Heleno, o jogador mais difícil que o ex-volante considera ter marcado. Diferentemente dos anos anteriores, quando atuava basicamente com atletas criados no próprio Avaí, naquela temporada Régis viu o time se reforçar com jogadores como Itá, Dão, Altair, Carlão e Roberto Cavalo. Era um “time de renegados”, como ele diz, formado atletas que suas equipes anteriores não queriam mais.

- Mas era um grupo muito bom. O Roberto Cavalo, por exemplo, já estava no final da carreira e não jogava com tanta frequência, mas era um cara que ajudava muito o grupo, principalmente os mais jovens – conta. Régis lembra que, certa vez, Cavalo chegou a pagar o hotel da delegação numa viagem a Criciúma, para que o elenco pudesse se hospedar num local com melhor estrutura (anos depois, Cuca faria o mesmo).

Lembrando do seu passado de jogador, Régis considera que o período vivido na Ressacada foi muito bom.

- Foi uma das melhores épocas da minha vida. Tenho muito carinho pelo Avaí. Ainda hoje, acompanho os jogos pela TV e torço pelo clube.

O sucesso dentro de campo, porém, não significou riqueza. Régis considera que sua vida fora de campo fez com que desperdiçasse talento e dinheiro. Costumava sair para beber, principalmente com torcedores (“Com jogador, raramente eu saía”, diz), e não esconde que, algumas vezes, teve que ser buscado em casa por dirigentes ou colegas de time às vésperas de jogos por causa de noitadas. Também conta que o massagista Delmar da Rosa Pereira, o Pereirinha, às vezes lhe dava bastante glicose e frutas antes de partidas, para ele se recuperar da bebedeira.

O consumo de álcool foi aumentando durante os anos em que Régis foi jogador profissional e foi um dos motivos de sua aposentadoria precoce, com apenas 32 anos, defendendo o Marcílio Dias. Uma história já vista anteriormente em sua família. Seu pai, Reinaldo Pacheco, também foi jogador. Chegou a atuar no Botafogo (RJ) e teve uma transferência para o Corinthians (SP) cancelada pelos problemas extracampo. Reinaldo pendurou as chuteiras por causa do alcoolismo e morreu de cirrose quando Régis tinha apenas 10 anos.

- Depois que parei de jogar, via pela TV os meus amigos jogando, e eu não. Batia uma depressão… Aí, bebia mais e me afundava. Eu teria morrido, se não aceitasse que estava precisando de ajuda. Chegava a vomitar sangue – recorda o ex-volante do Leão.

- Eu acho que os clubes deveriam ter alguém pra aconselhar os jogadores desde a categoria de base sobre os riscos desse comportamento. Há muitos jogadores com problemas de alcoolismo. Isso deveria ser mais divulgado – completa Régis, que chegou a procurar ajuda médica quando ainda defendia o Avaí.

A naturalidade em lidar com esse assunto talvez seja explicada pelo fato de ele fazer parte de um passado cada vez mais distante. A mudança na vida de Régis ocorreu entre 2003 e 2004, quando ele ficou internado em uma casa que cuida de dependentes químicos, o Centro de Recuperação Betel. O local é ligado à igreja que o ex-volante frequenta, num sítio a aproximadamente 50 quilômetros de Curitiba.

Régis pensou que iria ficar apenas dois ou três dias lá, mas passou aproximadamente seis meses, incluindo o Natal e o Ano Novo. Depois de deixar o centro de recuperação, conheceu Vera, sua esposa. Eles e o filho Igor moram atualmente no bairro curitibano Boqueirão, onde Régis nasceu em 8 de março de 1970.

Torcedor do Colorado (PR) na infância, Régis integrava a equipe júnior do Pinheiros (PR) quando os dois clubes fundiram-se e deram origem ao Paraná Clube. Ele participou, como lateral-direito, do primeiro jogo da história da equipe paranista, fundada em dezembro de 1989. O centro de formação de atletas do Paraná, antes pertencente ao Pinheiros, fica perto da casa onde o ex-jogador vive atualmente.

De volta a suas origens, Régis curte a nova fase em sua vida e conta que ainda recebe o carinho de torcedores avaianos que eventualmente o encontram em Curitiba. Programou uma viagem de férias a Balneário Camboriú em abril e, quem sabe, pode esticar até Florianópolis para assistir a um jogo do Avaí. Ou do seu querido “Avaizinho”, como ele costuma dizer. Pois, venha, Régis. Estamos com saudades.

A carreira de Régis

1982-1989 – Pinheiros (PR)

1990 – Paraná (PR)

1991 – Foz do Iguaçu (PR)

1992 – Apucarana (PR)

1992 – Batel (PR)

1992-1994 – Caçadorense

1994-1998 – Avaí

1998 – Sampaio Correa (MA)

1999 – Avaí

2000 – Operário (PR)

2000 – Avaí

2001 – Tiradentes

2002 – Marcílio Dias

Títulos pelo Avaí: Catarinense (1997), Copa Santa Catarina (1995) e Catarinense Segunda Divisão (1994)

*os números de jogos e de gols de Régis podem ser um pouco maiores, pois faltam algumas súmulas de jogos da segunda divisão de 1994. A informação é do historiador Spyros Diamantaras.

** dados do livro Figueirense x Avaí – o clássico de Florianópolis, de Jairo Roberto de Sousa.

Texto: Felipe Silva

Fotos: Felipe Silva / Vera Pacheco

Produção: Felipe Matos

Entrevistadores: Adir José, Felipe Borges, Felipe Matos, Felipe Silva e Rafael Eleutério

 

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Comentários

1 Comment

  1. Um dos mais raçudos e melhores jogadores que já passaram pela ressacada, além de fora de campo ser uma cara maravilhoso, parceiro, apesar do seu problema com o álcool, que graças a deus ele teve foraç e se recuperou e para minha alegria que convivi muitos anos com o “Dú Véio”, como ele me chamava, ele está muito bem e espero ainda encontrar com ele para poder meter uma resenha.

    parabéns pela matéria.

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  1. O Deus do Clássico « Solta o Leão! - [...] a 1998 e 1999 a 2000, pra ser mais exato). Se ainda não visse, recomendo que leia o texto “Vitória …

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